A estrutura societária da Namisa vai pesar nas negociações
São Paulo - 25 de Agosto de 2008
As negociações para a venda da mineradora Nacional Minérios (Namisa) pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), com conclusão prevista para o final de setembro, terão como fator determinante não apenas o preço do ativo - que pode ficar entre US$ 6 bilhões e US$ 11 bilhões, segundo estimativas do mercado - mas a estrutura societária do negócio. Segundo fontes próximas às conversas, uma das principais preocupações das empresas interessadas na Namisa é o fato de que a CSN prefere vender apenas uma participação minoritária da mineradora, o que daria pouco poder de decisão ao novo acionista.
O presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, afirmou em maio que pretendia vender uma fatia de 30% a 40% da Namisa, com o objetivo de chamar a atenção do mercado para o valor dos ativos da companhia, sem, no entanto, se desfazer do controle. Recentemente, a siderúrgica afirmou publicamente que poderá avaliar a venda total da mineradora, a depender do valor da proposta, mas até agora não existe uma indicação clara para os compradores de qual será a estrutura efetiva do negócio. Segundo informações obtidas pela Agência Estado, este tema será debatido na mesa de negociações, a partir do início de setembro. Até o momento, as companhias interessadas estão fazendo auditorias na mineradora para elaborar propostas de compra. A próxima fase será a negociação propriamente dita, que culminará em propostas finais das proponentes. "Certamente, a questão de controle da Namisa terá um grande peso para os interessados", disse uma fonte que acompanha as conversas. Um dos motivos é que as empresas que têm musculatura suficiente para fechar um negócio deste porte preferem ter maior controle sobre os seus ativos. A expectativa é de que o novo acionista da Namisa buscará minimizar os riscos com uma boa posição no Conselho de Administração e com direito a voto em relação a assuntos específicos. Dentre os interessados pelo ativo estão siderúrgicas e mineradoras, mas o maior número de interessados é composto por siderúrgicas estrangeiras que pretendem reduzir sua dependência em relação aos fornecedores de minério de ferro, que têm praticado preços cada vez mais elevados. Algumas das companhias que disputaram a compra da London Mining Brasil, como a ArcelorMittal, a russa Severstal, a americana Cleveland-Cliffs, além de siderúrgicas brasileiras e empresas indianas, são apontadas como algumas das potenciais interessadas. A mineradora BHP Billiton, que em abril confirmou seu interesse em comprar ativos de mineração no Brasil, também estaria entre os concorrentes. Recentemente, a imprensa japonesa divulgou que grandes siderúrgicas locais, como a Nippon Steel e a JFE Steel, planejam comprar em conjunto direitos de mineração para minério de ferro no exterior, a começar pela Namisa. O forte interesse do mercado pela Namisa se justifica pelo fato de que ele é o último ativo de minério de ferro de grande porte disponível no Brasil. A maior parte das reservas brasileiras, que tem uma qualidade superior à média mundial, está nas mãos da Vale ou das grandes siderúrgicas nacionais. Um diferencial é que a Namisa tem um alto teor de ferro, por volta de 65%, segundo relatório divulgado pelo Bradesco na semana passada. Segundo especialistas em mineração, este é um valor elevado, uma vez que a maioria das pequenas reservas que ainda existem no mercado contam com teor inferior a 50%. A London Mining, vendida recentemente à ArcelorMittal, por exemplo, continha teor de ferro de 38%. Outra vantagem é o grande porte da mina, que deve produzir 40 milhões de toneladas ao ano no longo prazo, enquanto a produção estimada para a London Mining Brasil é de 10 milhões de toneladas por ano. A London Mining Brasil foi vendida por US$ 810 milhões, valor nove vezes superior ao pago pela empresa, quinze meses antes, o que reflete a forte valorização do minério no mercado internacional. A questão de logística, que costuma ser um entrave para este tipo de negócio no Brasil, deve ser atenuada na Namisa pelo fato de que a CSN venderá ações preferenciais da MRS Logística ao novo acionista da mineradora, garantindo acesso à ferrovia. A CSN também dará acesso ao porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro, por meio de contratos. Ainda que as negociações estejam em curso, fontes ligadas à venda da Namisa não descartam a possibilidade de que Steinbruch desista da operação caso o preço não atinja o valor considerado justo por ele, já que a situação financeira da CSN é confortável e ainda há muito a ganhar com a alta do minério de ferro.